Terça-feira, 18 de Março de 2008

"IMORTALIDADE"

Milan Kundera descreve um gesto do desejo de imortalidade no momento em que uma das suas personagens se retira do presente para inventar um novo futuro. Tive dificuldade de imaginar a imortalidade de um gesto de uma qualquer pessoa. Finalmente compreendi que são estes gestos que nos tornam imortais.

Estive, num dos fins-de-semana do mês de Fevereiro, na Mina de São Domingos, a poucos quilómetros de Mértola, numa jornada fotográfica. As minas foram desactivadas e abandonadas há quase meio século, pouco ou nada resta para além das ruínas do complexo industrial.

Nessa ocasião tive oportunidade de ver um documentário sobre o século de labor da Mina de São Domingos, desde a sua fundação até à declaração de falência e inactividade. Nele apareciam várias fotografias das gentes que trabalharam e viveram na localidade, durante a primeira metade do século XX. Estão todos mortos. Mas para mim estavam ali, naquele momento, vivos a falarem comigo.

A imortalidade de uma imagem, de um gesto. Os donos ingleses, os médicos e professores, os funcionários letrados, os trabalhadores especializados e os mineiros analfabetos. Todos falavam naquelas fotografias. Todos me diziam que queriam viver, que tinham muitos projectos, que ambicionavam um melhor futuro. Estavam ali, naquelas imagens amarelecidas pelo tempo, tão vivos como no instante em que foram fotografados.

A imortalidade consegue-se com a ausência, uma ausência prolongada que nos liberta das pequeninas formalidades do dia-a-dia isentas de qualquer significado, gesto ou sentimento. Percebi isto num abraço partilhado com um jovem da minha idade – um conhecido actor de teatro – passados mais de vinte anos.

Estivemos os dois no Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra, no início dos anos oitenta, ele desistiu do curso e seguiu o teatro, eu resisti no curso e tornei-me professor. Fui reencontrá-lo nos camarins do Teatro das Figuras, em Faro. Iniciámos uma conversa com um sentido abraço, de comunhão de corpos, num gesto de certeza de imortalidade.

Facilmente actualizaríamos as moradas, a família, os afazeres e retomaríamos uma vivência partilhada aos dezanove, vinte anos, quando ainda estava tudo em aberto e acreditávamos que apenas o sucesso nos tornaria imortais. Agora sei que um gesto, um «Estou aqui», «Gosto daquilo que faço», um abraço, é mais forte do que a simples ilusão de ter poder, de ser importante.

São estes os gestos que nos tornam imortais. A imortalidade está em nós.

 

António Guerreiro


publicado por umquartoescuro às 14:25
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